Malhar mais pesado alivia mais a dor? O que a ciência diz sobre exercícios para Osteoartrite de Joelho
Com o aumento global dos casos de osteoartrite, entender as melhores formas de tratamento tornou-se essencial para milhões de pessoas. Um estudo científico recente, publicado na revista Musculoskeletal Care, trouxe revelações surpreendentes sobre a relação entre a quantidade de exercício de resistência e a melhora dos sintomas.Muitas vezes, acredita-se que "quanto mais, melhor" quando se trata de fortalecer os músculos para proteger as articulações. No entanto, esta nova revisão sistemática com meta-regressão questiona esse senso comum, analisando se a dosagem prescrita realmente dita o ritmo da recuperação.Neste artigo, vamos explorar as descobertas desse estudo e o que elas significam para pacientes e profissionais de saúde que buscam o alívio da dor no joelho.
Lino Matias
3/18/20263 min read


O que é a dosagem no exercício de resistência?
Para entender o estudo, primeiro precisamos definir o que os pesquisadores consideram como "dosagem". No contexto da reabilitação física, a dosagem não é apenas o tempo de treino, mas uma combinação complexa de vários fatores:
Volume: O número total de séries, repetições e a variedade de exercícios realizados.
Frequência: Quantas vezes por semana o paciente realiza as atividades.
Intensidade: O nível de esforço exigido em cada movimento.
Duração: O tempo total do programa de intervenção (ex: 8 ou 12 semanas).
O objetivo central da pesquisa foi verificar se aumentar esses números levaria a uma redução proporcional da dor e a uma melhoria na função física de quem sofre com o desgaste da cartilagem no joelho.
A grande surpresa: Mais peso não significa menos dor?
Após analisar dados de 14 ensaios clínicos controlados com mais de 1.200 participantes, os resultados foram inesperados. Os pesquisadores não encontraram uma associação direta entre a "dosagem total" prescrita e a mudança na dor ou na função física.
Isso significa que, estatisticamente, um programa de exercícios extremamente intenso e volumoso não garantiu resultados significativamente melhores do que programas mais moderados. Essa descoberta desafia a ideia de que o ganho de força muscular é o único caminho para a melhora da osteoartrite.
Por que a dosagem alta pode não ser o segredo?
A ciência sugere que a dor na osteoartrite é complexa e influenciada por diversos fatores que vão além da força muscular bruta:
Fatores Psicológicos: Crenças sobre a dor, medo de se movimentar e a autoconfiança do paciente desempenham um papel crucial na percepção do alívio.
Efeito Placebo e Contextual: O simples fato de estar em um programa de cuidados e ter atenção profissional pode gerar melhorias independentemente da carga utilizada.
Mecanismos de Dor: O exercício influencia o sistema nervoso de formas que ainda não compreendemos totalmente, e nem sempre isso depende de quanto peso você levanta.
Exercícios para osteoartrite de joelho: Volume excessivo pode atrapalhar?
Um dado curioso e que acende um alerta para fisioterapeutas e educadores físicos foi uma associação negativa encontrada em análises exploratórias: um volume de exercício muito alto foi associado a melhorias ligeiramente menores na função física.
Embora esse achado deva ser interpretado com cautela devido à baixa qualidade de alguns estudos analisados, ele sugere que o excesso de repetições ou exercícios pode sobrecarregar a articulação já sensível, em vez de ajudá-la.
Prescrição de exercícios e fisioterapia: O foco na individualização
Se a dosagem total não é o fator principal, o que os profissionais devem fazer? O estudo sugere uma mudança de paradigma na prescrição de exercícios para osteoartrite:
Personalização: Em vez de seguir protocolos rígidos de "alta dose", o tratamento deve ser adaptado às necessidades, capacidades e preferências de cada indivíduo.
Adesão é Fundamental: O melhor exercício é aquele que o paciente consegue e deseja manter a longo prazo, já que os benefícios tendem a diminuir se a prática for interrompida.
Abordagem Biopsicossocial: Tratar o paciente como um todo, considerando seu bem-estar mental e educação sobre a doença, pode ser tão importante quanto o fortalecimento em si.
Conclusão: O que aprendemos com a ciência recente
A conclusão do estudo é clara: não há evidências sólidas de que prescrever doses cada vez maiores de exercícios de resistência resulte em benefícios clínicos superiores para a osteoartrite de joelho.
Isso traz um alívio para muitos pacientes que temem não conseguir realizar treinos pesados ou exaustivos. A mensagem principal é que se movimentar importa, mas o equilíbrio e a adaptação individual parecem ser mais valiosos do que apenas perseguir números altos de séries e repetições.
Se você sofre com dores no joelho, procure um profissional que valorize o seu histórico e adapte o treino ao seu ritmo. A ciência mostra que, na jornada contra a osteoartrite, o caminho mais inteligente nem sempre é o mais pesado.
REFERÊNCIA: de Wit J, Haber T, Hall M, Bennell KL, Hinman RS, Spiers L, Kimp AJ, Dell'Isola A, Harmer AR, van der Esch M, Lawford BJ. Association Between Prescribed Dosage of Resistance Exercise and Change in Pain and Physical Function in Knee Osteoarthritis: A Systematic Review With Meta-Regression. Musculoskeletal Care. 2025 Jun;23(2):e70110. doi: 10.1002/msc.70110. PMID: 40320557; PMCID: PMC12050247.