O Poder do Movimento: Como a Atividade Física Modula a Dor em Idosos
Você já ouviu a frase "quem não se movimenta, enferruja"? Para milhões de idosos que convivem com a dor crônica, essa máxima popular ganha agora um embasamento científico profundo. A ciência está revelando que o exercício não é apenas uma questão de manter a forma, mas sim uma ferramenta biológica poderosa para "reprogramar" a forma como o cérebro processa a dor. Atualmente, cerca de 20% da população europeia sofre de dor crônica, mas esse número salta para impressionantes 50% quando olhamos para a terceira idade. Em ambientes de cuidados prolongados, como casas de repouso, essa prevalência pode chegar a 80%. Diante desse cenário, surge uma pergunta essencial: como a atividade física pode atuar como um analgésico natural no corpo envelhecido?
Lino Matias
1/29/20263 min read


O que é a Modulação Endógena da Dor (EPM)?
Para entender como o exercício ajuda, precisamos entender a Modulação Endógena da Dor (EPM). Esse termo técnico refere-se à capacidade incrível do nosso Sistema Nervoso Central de inibir ou facilitar os sinais de dor.
É como se tivéssemos um "botão de volume" interno para a dor. Em um sistema saudável, o corpo ativa vias inibitórias descendentes que reduzem a intensidade das mensagens de dor antes mesmo de elas chegarem à consciência. No entanto, em idosos com dor crônica, esse sistema de controle costuma estar prejudicado.
O Papel do Condicionamento da Modulação da Dor (CPM)
Os cientistas utilizam um teste chamado Modulação Condicionada da Dor (CPM) para medir a eficácia desse "botão de volume". O princípio é curioso: "a dor inibe a dor".
No teste, aplica-se um estímulo doloroso inicial e, em seguida, um segundo estímulo em outra parte do corpo. Em pessoas saudáveis, o segundo estímulo faz com que o cérebro libere substâncias analgésicas que diminuem a percepção da primeira dor. Em muitos idosos, esse mecanismo falha, tornando-os mais sensíveis aos estímulos dolorosos.
Atividade Física: O Analgésico Natural para a Terceira Idade
A atividade física regular parece ser a chave para restaurar esse mecanismo de controle. O exercício vigoroso e frequente ajuda a ajustar o equilíbrio entre as transmissões excitatórias e inibitórias no sistema nervoso.
Existem vários motivos biológicos para isso ocorrer:
Liberação de Opioides: O movimento estimula a produção de opioides endógenos, as "morfinas" naturais do corpo.
Alteração de Neurotransmissores: O exercício modifica a química cerebral, favorecendo substâncias que acalmam o sistema nervoso.
Preservação Estrutural: A atividade física ajuda a manter estruturas cerebrais críticas para o funcionamento da modulação da dor.
Benefícios Além do Alívio da Dor
Optar pelo movimento em vez de depender exclusivamente de remédios é especialmente importante para os mais velhos. O tratamento farmacológico em idosos apresenta riscos elevados devido a:
Polifarmácia: O uso de múltiplos medicamentos simultâneos.
Efeitos Colaterais: Maior sensibilidade a reações adversas e interações medicamentosas.
Risco de Vício: Possibilidade de dependência de analgésicos fortes.
A atividade física, por outro lado, oferece benefícios sistêmicos, melhorando a função física, a qualidade de vida e reduzindo o isolamento social frequentemente causado pela dor.
Protocolos de Exercício e a Ciência em Construção
Embora o benefício do exercício seja amplamente aceito, a ciência ainda busca os protocolos exatos para idosos. Uma nova revisão de escopo está sendo conduzida para mapear quais tipos de atividades são mais eficazes.
O objetivo é entender como variáveis específicas influenciam a dor:
Frequência: Quantas vezes por semana o idoso deve se exercitar?
Intensidade: Qual o nível de esforço ideal para ativar a modulação da dor?
Duração: Quanto tempo cada sessão deve durar para gerar efeitos duradouros?
Modalidade: Caminhada, força, hidroginástica ou práticas mente-corpo?
Tipos de Atividades em Estudo
Atualmente, as diretrizes de saúde, como as do NICE (Reino Unido), recomendam uma combinação de abordagens para mudar o comportamento e melhorar a participação social. Entre as atividades mais estudadas estão:
Exercícios aeróbicos e cardiovasculares.
Treinamento de força e resistência muscular.
Práticas de mente-corpo (como Yoga ou Tai Chi).
Programas de mobilidade e flexibilidade.
Superando Desafios no Manejo da Dor
Viver com dor crônica não é fácil. Muitos idosos sentem-se pessimistas sobre seu futuro ou acreditam ser um fardo para suas famílias. No entanto, a compreensão de que o corpo possui mecanismos internos de cura que podem ser "ativados" pelo movimento traz uma nova perspectiva de esperança.
A dor crônica está associada a quedas, comprometimento cognitivo e fragilidade acelerada. Portanto, investir em atividade física não é apenas sobre dor, é sobre preservar a autonomia e a dignidade na velhice.
Conclusão: O Movimento como Estratégia de Vida
A ciência confirma que a atividade física é uma das intervenções mais recomendadas para gerenciar a dor e melhorar a função física. Ao entender que o exercício fortalece o sistema de modulação da dor do próprio corpo, o idoso deixa de ser um paciente passivo e se torna um agente ativo de sua própria saúde.
REFERÊNCIA: Verbelen D, Korogod N, Opsommer E. Physical activity and endogenous pain modulation in older people: a scoping review protocol. JBI Evid Synth. 2024 Feb 1;22(2):292-297. doi: 10.11124/JBIES-23-00013. PMID: 37872821.