Dor durante o exercício em idosos: quando adaptar, interromper ou continuar?
Sentir dor durante o exercício não significa automaticamente que o treino precisa ser interrompido. Entenda como intensidade, comportamento da dor, função e sinais de alerta ajudam a decidir quando continuar, adaptar ou parar.
9/21/202610 min read


Dor durante o exercício em idosos: quando adaptar, interromper ou continuar?
Dor durante o exercício é uma situação comum no treinamento de pessoas idosas.
Joelho incomodando no agachamento. Ombro dolorido durante uma puxada. Lombar que começa a incomodar ao levantar da cadeira.
Diante disso, aparecem duas respostas extremas:
“Sentiu dor? Pare imediatamente.”
ou:
“Dor faz parte. Continue treinando.”
As duas podem estar erradas.
A presença de dor, isoladamente, não informa se determinado exercício está causando dano, se deve ser interrompido ou se pode continuar normalmente.
A decisão depende de como essa dor se comporta, do contexto da pessoa, da tarefa realizada e da resposta ao exercício ao longo do tempo.
É justamente aí que entra o raciocínio profissional.
Dor não é um medidor direto de dano
A International Association for the Study of Pain (IASP) define dor como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a dano tecidual real ou potencial.
A própria definição destaca que a dor é uma experiência pessoal influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. (IASP)
Isso tem uma consequência prática importante:
mais dor não significa necessariamente mais lesão, e ausência de dor não garante ausência de problema.
Isso é especialmente relevante em condições musculoesqueléticas crônicas, bastante frequentes entre idosos.
Uma pessoa com osteoartrite de joelho, por exemplo, pode apresentar dor durante determinadas tarefas sem que isso represente uma nova lesão ocorrendo a cada movimento.
Ao mesmo tempo, seria igualmente errado concluir que toda dor pode ser ignorada.
O desafio é interpretar o padrão, e não apenas perguntar se existe ou não dor.
Exercício precisa ser completamente indolor?
Não necessariamente.
As diretrizes do NICE para osteoartrite orientam explicitamente que a dor articular pode aumentar quando uma pessoa começa um programa de exercício terapêutico. Mesmo assim, exercício regular e consistente pode trazer benefícios para dor, função e qualidade de vida.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 comparou programas nos quais o exercício provocava alguma dor com programas realizados sem dor em adultos com dor musculoesquelética crônica.
Não foram encontradas diferenças claras entre as duas estratégias para dor ou incapacidade ao longo do acompanhamento. A certeza da evidência era baixa, portanto isso não significa que provocar dor seja necessário ou superior. Significa algo mais modesto e importante:
a presença de alguma dor durante o exercício não torna automaticamente o exercício inadequado.
Isso desmonta uma regra bastante difundida:
“qualquer dor = exercício errado”.
Então quanto de dor é aceitável?
Aqui é preciso resistir à tentação de criar um número mágico.
Às vezes aparecem regras como:
“até 3/10 pode”
“até 5/10 é aceitável”
“acima disso tem que parar”.
Esses valores podem ser utilizados dentro de protocolos específicos, mas não existe um ponto de corte universal que determine, para todos os idosos e todas as condições, quando um exercício se tornou seguro ou perigoso.
Um 4/10 pode representar situações completamente diferentes.
Um idoso pode relatar uma dor conhecida de 4/10 no joelho durante as primeiras repetições, realizar o movimento normalmente e terminar a sessão sem piora.
Outro pode relatar os mesmos 4/10 associados a uma dor súbita que nunca havia sentido, alteração importante da marcha e dificuldade para apoiar a perna.
O número é igual.
A decisão não deveria ser.
Por isso, intensidade é apenas uma das características da dor.
O que é mais importante observar?
Para decidir se o exercício pode continuar, eu observaria principalmente quatro coisas:
comportamento da dor, qualidade do movimento, resposta após o exercício e contexto da pessoa.
A pergunta deixa de ser:
“está doendo?”
e passa a ser:
“o que está acontecendo com essa dor?”
Quando pode fazer sentido continuar?
Uma dor já conhecida, de intensidade tolerável, que permanece relativamente estável durante a tarefa e não provoca deterioração evidente do movimento pode, dependendo do quadro, não exigir a interrupção automática do exercício.
Isso é particularmente relevante em condições crônicas como osteoartrite.
Há evidência robusta de benefício do exercício para pessoas com osteoartrite, e revisões com adultos mais velhos com dor no joelho não encontraram aumento de eventos adversos graves, piora sustentada da dor, perda de função ou progressão estrutural decorrente de programas terapêuticos de exercício de baixo impacto avaliados em longo prazo.
Portanto, simplesmente evitar qualquer movimento que ocasione algum desconforto pode levar a outro problema:
reduzir progressivamente a capacidade física da pessoa.
Isso não significa “treinar por cima da dor”.
Significa reconhecer que dor e segurança não são sinônimos.
Quando eu adaptaria o exercício?
Entre continuar exatamente igual e interromper completamente existe uma terceira opção, que provavelmente é a mais utilizada na prática:
adaptar.
Uma mudança no exercício pode ser apropriada quando a dor aumenta progressivamente, começa a modificar a execução, torna a tarefa claramente menos tolerável ou produz uma resposta posterior pior do que a habitual.
E adaptar não significa necessariamente abandonar aquele padrão de movimento.
Podemos alterar variáveis como:
carga, amplitude, número de repetições, volume total, velocidade, apoio, posição corporal ou até escolher temporariamente outra variação do exercício.
Imagine um idoso com dor no joelho durante um agachamento.
A primeira pergunta não deveria ser automaticamente:
“qual exercício substitui o agachamento?”
Pode ser mais útil investigar:
a dor muda se reduzirmos a carga?
e se modificarmos a amplitude?
e se utilizarmos uma cadeira mais alta?
e se diminuirmos o volume?
O objetivo é descobrir se conseguimos manter um estímulo útil com uma resposta aceitável.
Essa lógica é semelhante à que usamos ao interpretar testes funcionais: o resultado isolado não explica a causa nem determina sozinho a conduta.
Por exemplo, no teste de sentar e levantar 5 vezes (5xSTS), a presença de dor pode influenciar o desempenho sem significar necessariamente falta de força.
A resposta depois do treino importa
Olhar apenas para o que acontece durante a repetição é insuficiente.
Também é importante observar como a pessoa responde depois.
Uma pequena alteração transitória que retorna ao padrão habitual pode ter um significado diferente de uma piora importante que permanece, interfere na marcha, prejudica o sono ou reduz atividades cotidianas.
Não existe uma regra universal dizendo que toda dor deve desaparecer exatamente em 24 horas.
Mas a tendência da resposta fornece informação.
Se sessão após sessão:
a dor aumenta, dura mais, passa a ocorrer em atividades que antes eram indolores ou a função piora,
então o programa merece ser revisto.
Nesse sentido, acompanhar a evolução é muito mais informativo do que avaliar uma repetição isoladamente.
Quando a dor deve fazer o exercício parar?
Aqui precisamos separar dor musculoesquelética habitual de sinais que merecem mais atenção.
Dor conhecida, tolerável, estável, sem mudança importante de movimento ou função ---> Pode ser possível continuar e monitorar
Dor aumentando, execução piorando ou resposta pós-treino claramente acima do habitual ---> Adaptar carga, volume, amplitude ou exercício e reavaliar
Dor súbita/intensa, trauma, incapacidade de apoiar, edema importante, sintomas neurológicos ou sintomas sistêmicos/cardiovasculares ---> Interromper e avaliar a necessidade de encaminhamento
O ponto importante é que “parar” também não significa sempre a mesma coisa.
Pode significar interromper aquele exercício, encerrar a sessão ou procurar avaliação de outro profissional, dependendo do quadro.
Quais sinais merecem mais cautela?
Dor muito intensa após uma queda ou trauma, incapacidade de colocar peso sobre uma articulação, grande edema, deformidade, perda de sensibilidade ou formigamento após uma lesão são sinais que justificam avaliação médica. Uma articulação subitamente muito dolorosa, quente e inchada, principalmente associada a febre ou mal-estar, também exige atenção. (nhs.uk)
Há ainda sintomas que não devem ser tratados como simples “dor do treino”.
Dor ou pressão no peito, falta de ar incomum ou muito acima do esperado para aquele esforço, tontura, confusão ou sensação de desmaio durante o exercício são razões para interromper a atividade e considerar avaliação imediata. (www.heart.org)
Da mesma forma, alterações neurológicas novas — como fraqueza súbita, perda importante de sensibilidade ou, no contexto de dor lombar, alterações novas de controle urinário ou intestinal — precisam de investigação, não de ajuste de série. (Nice)
Dor muscular e dor articular são a mesma coisa?
Não necessariamente.
Sensação de esforço, fadiga muscular ou “queimação” durante uma série não deve ser automaticamente interpretada da mesma forma que uma dor articular súbita e localizada.
Mas apenas perguntar “é músculo ou articulação?” também pode ser insuficiente.
Na prática, interessa compreender:
onde dói, quando começou, qual movimento provoca, como a dor muda conforme carga e amplitude, se existe histórico semelhante e o que acontece depois da sessão.
A avaliação da dor em idosos não deveria ficar restrita à intensidade. Revisões mostram que a experiência dolorosa é multidimensional e que avaliações baseadas apenas em uma escala numérica capturam somente parte do problema. (PubMed)
O movimento ficou diferente por causa da dor?
Essa pergunta é especialmente útil para o profissional de Educação Física.
Imagine que uma aluna normalmente realiza o exercício com controle, mas ao surgir dor começa a:
descarregar peso para um lado, encurtar abruptamente a amplitude, acelerar uma fase do movimento ou utilizar apoios que antes não precisava.
Essas mudanças não revelam necessariamente a causa da dor.
Mas mostram que a tarefa mudou.
Se o estímulo planejado dependia de determinada execução, talvez já não estejamos treinando aquilo que imaginávamos.
Por isso, dor deve ser analisada junto com função e movimento, e não apenas como um número informado pela pessoa.
É a mesma lógica utilizada no Timed Up and Go (TUG): o cronômetro fornece uma medida, mas observar como a tarefa foi realizada adiciona informação importante.
Idosos com artrose devem evitar exercícios que provocam desconforto?
Não como regra.
O NICE considera exercício terapêutico um tratamento central para osteoartrite e recomenda que seja adaptado às necessidades da pessoa. A diretriz também orienta explicar que, inicialmente, o exercício pode aumentar dor ou desconforto, mas a prática regular tende a melhorar sintomas e função em longo prazo. (Nice)
Uma grande análise publicada no BMJ em 2025, incluindo 217 ensaios clínicos e mais de 15 mil participantes com osteoartrite de joelho, encontrou benefício de diferentes modalidades de exercício para dor e função, embora a magnitude e a certeza dos efeitos variassem entre modalidades e períodos de acompanhamento. (BMJ)
Portanto, para alguém com osteoartrite, a pergunta geralmente não deveria ser:
“como fazer para nunca sentir nada no joelho?”
mas:
“como encontrar uma dose de exercício que essa pessoa tolere e à qual consiga se adaptar?”
E quando a dor aparece em exercícios de equilíbrio?
A mesma lógica vale.
Dor pode alterar confiança, estratégia de movimento e capacidade de produzir força, modificando o desempenho em tarefas de equilíbrio.
Por isso, interpretar um mau desempenho apenas como “falta de equilíbrio” pode ser um erro.
Em um idoso que apresenta dor ao realizar tarefas em pé, pode ser necessário considerar se parte da dificuldade observada é influenciada pela própria dor.
Isso reforça por que o treino de equilíbrio para idosos precisa ser individualizado e progressivo.
A idade muda a interpretação da dor?
Idade, sozinha, não transforma uma dor em sinal de perigo.
Mas envelhecimento aumenta a probabilidade de coexistirem condições que precisam ser consideradas: osteoartrite, osteoporose, doenças cardiovasculares, neuropatias, histórico de quedas, uso de vários medicamentos e outras alterações clínicas.
Por isso, duas pessoas com exatamente a mesma queixa durante exatamente o mesmo exercício podem exigir decisões diferentes.
Não porque exista um protocolo especial chamado “dor em idosos”, mas porque o contexto modifica o significado daquela resposta.
Um erro comum: mudar todos os exercícios sempre que aparece dor
Esse comportamento parece prudente, mas pode criar um problema.
Se qualquer desconforto resulta imediatamente em retirar o movimento, podemos restringir progressivamente o repertório da pessoa sem descobrir se aquele exercício realmente era intolerável.
Às vezes bastava modificar a tarefa.
Por outro lado, insistir sempre no mesmo exercício sob a justificativa de que “dor não significa lesão” também é um uso ruim desse conceito.
O fato de a dor não representar diretamente dano tecidual não significa que ela deva ser ignorada.
A dor continua sendo uma informação relevante sobre a experiência daquela pessoa.
Um modelo melhor de decisão
Para o profissional, eu resumiria o raciocínio em três perguntas:
1. O que estou vendo agora?
Como é a dor e como ela está afetando a execução?
2. O que acontece quando modifico a tarefa?
Carga, amplitude, volume ou variação alteram a resposta?
3. O que acontece depois?
A pessoa retorna ao seu padrão habitual ou apresenta piora progressiva da dor e da função?
Essas três respostas são muito mais úteis do que um único número numa escala de 0 a 10.
Conclusão
Dor durante o exercício em idosos não deveria produzir automaticamente nem:
“pare”
nem:
“continue”.
Alguma dor pode ser compatível com treinamento seguro e benéfico, especialmente em condições musculoesqueléticas crônicas.
Em outras situações, a resposta mais adequada será modificar carga, amplitude, volume ou o próprio exercício.
E determinados sinais exigem interrupção e avaliação adicional.
Por isso, a decisão não deve ser baseada apenas em quanto dói.
O profissional precisa integrar:
características da dor + execução do movimento + resposta à adaptação + evolução após a sessão + contexto clínico e funcional.
A questão deixa de ser:
“o exercício causa dor?”
e passa a ser:
“O que esta resposta à carga me diz e qual é a melhor decisão agora?”
É essa passagem da observação para a decisão que diferencia simplesmente aplicar exercícios de prescrever treinamento com critério.
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Referências principais
International Association for the Study of Pain (IASP). Terminology and revised definition of pain. A IASP destaca o caráter pessoal e multidimensional da experiência dolorosa. (IASP)
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management. NG226, 2022. Recomenda exercício terapêutico individualizado e esclarece que alguma dor ou desconforto pode ocorrer no início do programa. (Nice)
Tran I, et al. Effectiveness of Painful Versus Nonpainful Exercise on Pain Intensity, Disability, and Other Patient-Reported Outcomes in Adults With Chronic Musculoskeletal Pain. J Orthop Sports Phys Ther. 2025. (PubMed)
Quicke JG, et al. Is long-term physical activity safe for older adults with knee pain? A systematic review. Osteoarthritis and Cartilage. 2015. (PubMed)
American Heart Association. Recomenda interromper atividade diante de sintomas como dor/pressão torácica, tontura e falta de ar incomum e procurar avaliação apropriada. (www.heart.org)
NHS. Joint pain e Sprains and strains. Orientações sobre dor articular associada a trauma, edema, incapacidade de apoio e outros sinais que justificam avaliação. (nhs.uk)