Teste de sentar e levantar 5 vezes (5xSTS): o que ele realmente avalia em idosos?
Entenda como realizar o Five Times Sit-to-Stand (5xSTS), o que o tempo do teste representa e por que ele não deve ser interpretado como uma medida isolada de força ou risco de quedas.
Lino Matias
6/2/20267 min read


Teste de sentar e levantar 5 vezes (5xSTS): o que ele realmente avalia em idosos?
Levantar-se de uma cadeira é uma tarefa aparentemente simples, mas exige a integração de diferentes capacidades físicas.
É justamente essa tarefa que está por trás do Five Times Sit-to-Stand Test (5xSTS), ou teste de sentar e levantar cinco vezes.
O teste é amplamente utilizado na avaliação de pessoas idosas porque é rápido, barato e reproduz uma ação presente em atividades cotidianas.
Mas existe um problema comum na interpretação:
um tempo ruim no 5xSTS não significa automaticamente “fraqueza nas pernas”.
Da mesma forma, completar o teste rapidamente não permite concluir, sozinho, que força, equilíbrio e risco de quedas estão normais.
O resultado precisa ser interpretado como aquilo que ele realmente é: o desempenho em uma tarefa funcional complexa.
Como é realizado o 5xSTS?
Em uma das formas mais utilizadas do teste, a pessoa começa sentada em uma cadeira e deve:
levantar-se completamente;
sentar novamente;
repetir o movimento cinco vezes;
completar as cinco repetições o mais rápido possível dentro das instruções do protocolo.
O tempo total é registrado.
Parece extremamente simples. Porém, detalhes do protocolo podem alterar o resultado.
Altura da cadeira, posição dos pés, uso dos braços e instruções dadas ao participante podem modificar o tempo de execução. Uma revisão sistemática de 2023 encontrou variação entre protocolos e destacou justamente a importância da padronização na aplicação do teste.
Por isso, quando o objetivo é acompanhar a evolução de uma pessoa, é importante repetir o teste nas mesmas condições.
O 5xSTS mede força das pernas?
Aqui está uma das distinções mais importantes.
O 5xSTS é frequentemente utilizado como indicador de força de membros inferiores. O próprio consenso europeu de sarcopenia, o EWGSOP2, utiliza o desempenho no teste de levantar da cadeira como uma das alternativas para avaliar baixa força muscular.
Mas isso não significa que o cronômetro esteja medindo força muscular diretamente.
Para levantar e sentar cinco vezes rapidamente, a pessoa depende de vários fatores:
força;
potência;
equilíbrio;
coordenação;
mobilidade;
estratégia de movimento;
velocidade;
dor;
características antropométricas.
Estudos mostram associação entre desempenho no teste e força dos membros inferiores, mas a relação está longe de ser perfeita.
Isso significa que:
um 5xSTS lento pode estar associado à baixa força, mas o teste sozinho não identifica qual capacidade está limitando o movimento.
É uma lógica parecida com a que ocorre no Timed Up and Go (TUG): o resultado final integra diferentes capacidades e não deve ser confundido com uma medida isolada de uma delas.
E a potência muscular?
Esse ponto merece atenção especialmente no envelhecimento.
Levantar rapidamente de uma cadeira exige não apenas produzir força, mas produzi-la em pouco tempo.
Por isso, a potência muscular pode influenciar significativamente a execução da tarefa.
Entretanto, novamente, não devemos inverter o raciocínio:
tempo no 5xSTS não é uma medida direta de potência.
Dados recentes reforçam essa diferença. Em um estudo com idosos, medidas específicas de potência obtidas durante o movimento apresentaram relações diferentes das observadas simplesmente utilizando o tempo do 5xSTS.
O cronômetro registra quanto tempo a tarefa inteira demorou.
Ele não informa diretamente como a força foi produzida durante cada repetição.
Então por que o teste é tão utilizado?
Porque simplicidade também tem valor.
Uma revisão sistemática e meta-análise encontrou boa a excelente confiabilidade do 5xSTS em diferentes populações adultas, mostrando que o teste pode produzir medidas consistentes quando aplicado de forma padronizada.
Isso o torna uma ferramenta prática para:
avaliar desempenho funcional;
identificar pessoas que merecem investigação mais detalhada;
comparar indivíduos com referências apropriadas;
acompanhar mudanças ao longo do tempo.
O teste é útil.
A questão é não pedir que ele responda perguntas para as quais não foi desenhado.
Qual é um “bom tempo” no 5xSTS?
Existem valores de referência publicados.
Uma meta-análise com idosos encontrou tempos acima de aproximadamente:
11,4 segundos entre 60–69 anos;
12,6 segundos entre 70–79 anos;
14,8 segundos entre 80–89 anos
como desempenhos piores que a média das populações analisadas.
Já o EWGSOP2 utiliza mais de 15 segundos para cinco levantamentos como ponto de corte relacionado à baixa força muscular dentro do algoritmo de avaliação de sarcopenia.
Isso mostra algo importante:
não existe um único número universal que possa ser aplicado a todas as situações.
O significado depende de:
idade;
população;
objetivo do teste;
protocolo;
contexto clínico;
referência utilizada.
Um valor de referência é exatamente isso: uma referência, não um diagnóstico.
O 5xSTS consegue prever quedas?
Há associação entre pior desempenho funcional e quedas, e o 5xSTS aparece em estudos de avaliação do risco.
Uma revisão sistemática e meta-análise identificou o teste entre as medidas funcionais potencialmente úteis na avaliação de risco de quedas em idosos da comunidade. Porém, os próprios autores ressaltaram que nenhuma medida isolada demonstrou forte capacidade de determinar individualmente quem cairá no futuro.
Uma revisão mais recente também encontrou heterogeneidade importante nos pontos de corte utilizados para o 5xSTS.
Portanto:
um resultado lento pode aumentar a suspeita de comprometimento funcional, mas não permite afirmar sozinho que o idoso apresenta alto risco de quedas.
Quedas são multifatoriais.
A avaliação do risco de quedas precisa considerar histórico de quedas, marcha, equilíbrio, medicamentos, visão, cognição, ambiente e outros fatores relevantes.
Usar as mãos significa necessariamente fraqueza?
Não.
Essa é outra simplificação comum.
A necessidade de usar os braços pode estar relacionada à dificuldade para produzir força suficiente, mas também pode ser influenciada por:
dor;
medo;
equilíbrio;
mobilidade;
altura da cadeira;
estratégia aprendida;
características individuais.
Portanto, observar que uma pessoa precisa das mãos é informação relevante, mas não é diagnóstico de fraqueza muscular.
Aliás, diferentes testes lidam de formas diferentes com esse problema.
No 30-Second Chair Stand, utilizado no programa STEADI do CDC, os braços ficam cruzados sobre o peito e o resultado é o número de levantamentos realizados em 30 segundos. Se a pessoa precisa utilizar os braços, esse protocolo específico orienta interromper o teste.
Isso também mostra que 5xSTS e 30-Second Chair Stand não são o mesmo teste.
5xSTS e teste de 30 segundos: qual a diferença?
Eles utilizam o mesmo movimento básico, mas respondem a perguntas diferentes.
5xSTS
A pessoa realiza cinco repetições, e o resultado principal é o tempo necessário.
30-Second Chair Stand
A pessoa executa o maior número possível de repetições em 30 segundos, e o resultado é a quantidade de levantamentos.
Eles não devem ser tratados como equivalentes.
O protocolo, a variável medida e a interpretação são diferentes.
O que observar além do cronômetro?
Assim como no TUG, há informação na qualidade do movimento.
Durante o teste, pode ser útil observar:
velocidade das repetições;
necessidade de impulso;
assimetria entre os membros;
posicionamento dos pés;
controle ao sentar;
dificuldade crescente ao longo das repetições;
dor;
instabilidade.
Dois idosos podem completar o teste em tempos semelhantes utilizando estratégias completamente diferentes.
Isso significa que:
o tempo resume o desempenho, mas não explica sozinho como aquele desempenho foi produzido.
O 5xSTS pode ser usado para acompanhar evolução?
Sim, e essa pode ser uma das aplicações mais interessantes do teste.
Se as condições forem padronizadas, repetir o teste ao longo do tempo pode ajudar a verificar mudanças no desempenho funcional.
A confiabilidade do 5xSTS é considerada boa a elevada na literatura.
Porém, uma melhora pequena no cronômetro não deve automaticamente ser tratada como mudança clínica importante.
É necessário considerar:
erro de medida;
população avaliada;
magnitude da mudança;
alterações observadas em outras avaliações;
evolução funcional da pessoa.
Como eu interpretaria o 5xSTS na prática?
Eu organizaria a interpretação em três níveis.
1. Resultado
Quanto tempo a pessoa levou para completar cinco repetições?
2. Movimento
Como ela levantou e sentou?
Houve instabilidade, assimetria, uso de impulso ou perda de controle?
3. Contexto
Qual é a idade da pessoa? Há dor? Histórico de quedas? Alterações de força, equilíbrio ou mobilidade? Como ela desempenha outras tarefas funcionais?
A combinação dessas informações é muito mais útil do que simplesmente classificar:
“abaixo de X = bom”
“acima de X = ruim”.
Conclusão
O Five Times Sit-to-Stand é uma ferramenta simples, barata e confiável para avaliar o desempenho na tarefa de sentar e levantar.
Ele é influenciado pela força muscular, mas não é uma medida pura de força.
Também pode fornecer informações relevantes sobre função e contribuir para uma avaliação de risco de quedas, mas não deve ser utilizado isoladamente para determinar quem irá cair.
O cronômetro fornece um número.
O 5xSTS fornece uma medida útil do desempenho funcional, mas o tempo isolado não explica por que uma pessoa teve determinado resultado. A interpretação depende da integração com outras informações da avaliação e do contexto individual.
A interpretação profissional começa justamente quando deixamos de olhar apenas para esse número.
Referências principais
Muñoz-Bermejo L et al. Test-Retest Reliability of Five Times Sit to Stand Test in Adults: A Systematic Review and Meta-Analysis. Biology. 2021.
Albalwi AA, Alharbi AA. Optimal procedure and characteristics in using five times sit to stand test among older adults: A systematic review. Medicine. 2023.
Bohannon RW. Reference values for the five-repetition sit-to-stand test: a descriptive meta-analysis of data from elders. Perceptual and Motor Skills. 2006.
Cruz-Jentoft AJ et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis (EWGSOP2). Age and Ageing. 2019.
Lusardi MM et al. Determining Risk of Falls in Community Dwelling Older Adults: A Systematic Review and Meta-analysis. Journal of Geriatric Physical Therapy. 2017.
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