Timed Up and Go (TUG): como avaliar e interpretar a mobilidade do idoso

Entenda o que o Timed Up and Go realmente avalia, como interpretar o tempo e por que pontos de corte não devem ser usados isoladamente para definir risco de quedas em idosos.

Lino Matias

7/1/20266 min read

Qual é o teste mais simples para avaliar a mobilidade do idoso?
Qual é o teste mais simples para avaliar a mobilidade do idoso?

Timed Up and Go (TUG): como avaliar e interpretar a mobilidade do idoso

O Timed Up and Go (TUG) é um dos testes funcionais mais utilizados na avaliação de pessoas idosas. Ele é rápido, exige pouco equipamento e reproduz uma sequência comum do cotidiano: levantar-se de uma cadeira, caminhar, mudar de direção, retornar e sentar.

Essa simplicidade, porém, pode levar a uma interpretação excessivamente simples:

“Se o idoso fez o teste em menos de determinado número de segundos, está bem; se demorou mais, tem risco de cair.”

A evidência científica não sustenta uma conclusão tão direta.

O TUG pode fornecer informações úteis sobre mobilidade funcional, mas o tempo obtido precisa ser interpretado dentro do contexto da pessoa avaliada.

O que é o Timed Up and Go?

A versão cronometrada do teste foi apresentada por Podsiadlo e Richardson em 1991, a partir do antigo Get-Up and Go.

No estudo original, a pessoa:

  1. começa sentada em uma cadeira;

  2. levanta-se;

  3. caminha 3 metros;

  4. realiza a volta;

  5. retorna até a cadeira;

  6. senta-se novamente.

O tempo necessário para completar toda a tarefa é registrado. O estudo original encontrou boa confiabilidade e associação do desempenho no TUG com outras medidas de mobilidade e atividades da vida diária.

Na aplicação clínica, é importante padronizar o procedimento. Calçado, dispositivo de auxílio à marcha, distância, cadeira e instruções podem interferir no resultado. O protocolo do CDC, por exemplo, orienta que a pessoa utilize seu calçado habitual, possa utilizar seu dispositivo de marcha quando necessário e caminhe em velocidade habitual.

O que o TUG realmente avalia?

Aqui existe uma distinção importante.

O TUG não é um teste isolado de força, nem um teste puro de equilíbrio ou de velocidade da marcha.

Ele quantifica o desempenho em uma tarefa de mobilidade funcional que exige a integração de diferentes capacidades.

Para completar o teste, a pessoa precisa:

  • levantar-se;

  • iniciar a marcha;

  • caminhar;

  • desacelerar;

  • mudar de direção;

  • retornar;

  • controlar o movimento para sentar-se.

Por isso, o resultado pode ser influenciado por força e potência dos membros inferiores, equilíbrio, velocidade da marcha, coordenação, dor, estratégia de movimento, cognição e outras características individuais.

Isso significa que dois idosos podem apresentar o mesmo tempo no TUG por razões completamente diferentes.

O cronômetro mostra o desempenho final. Ele não identifica sozinho a causa desse desempenho.

Essa diferença é fundamental para a interpretação profissional do teste.

Quanto menor o tempo, melhor?

Em termos gerais, uma execução mais rápida pode representar melhor desempenho naquela tarefa.

Mas interpretar apenas o valor absoluto tem limitações.

Imagine dois idosos realizando o TUG em 11 segundos.

O primeiro levanta com facilidade, caminha com passos seguros e realiza a mudança de direção de forma estável.

O segundo utiliza grande impulso para levantar, reduz muito a velocidade durante a volta e quase perde o equilíbrio antes de sentar.

O cronômetro pode mostrar resultados semelhantes, mas a informação clínica fornecida pela execução não é a mesma.

Por isso, além do tempo, pode ser útil observar aspectos como:

  • estratégia utilizada para levantar;

  • estabilidade durante a marcha;

  • comprimento e regularidade dos passos;

  • mudança de direção;

  • necessidade de apoio;

  • controle ao sentar.

O próprio protocolo STEADI do CDC recomenda observar características da marcha e estabilidade durante a execução, além de registrar o tempo.

E o famoso ponto de corte de 13,5 segundos?

Esse é provavelmente um dos aspectos mais mal interpretados do TUG.

O valor de 13,5 segundos tornou-se muito citado a partir de um estudo publicado por Shumway-Cook e colaboradores em 2000.

O problema surge quando esse valor passa a ser tratado como uma fronteira diagnóstica:

12 segundos = sem risco
14 segundos = com risco

A literatura posterior não sustenta esse raciocínio.

Uma revisão sistemática e meta-análise envolvendo 25 estudos analisou especificamente a capacidade do TUG de prever quedas em idosos que vivem na comunidade. Para o ponto de corte de aproximadamente 13,5 segundos, a sensibilidade combinada foi de apenas 32%, enquanto a especificidade ficou em aproximadamente 73%. Os autores concluíram que o TUG apresenta capacidade limitada para predizer quedas e não deve ser utilizado isoladamente para identificar idosos de alto risco.

Uma outra revisão sistemática, envolvendo 53 estudos e 12.832 participantes, encontrou grande variação entre os pontos de corte utilizados e concluiu que a capacidade diagnóstica e preditiva do teste era, no máximo, moderada. Os autores não recomendaram um único ponto de corte universal.

Então 12, 13,5 ou 15 segundos?

Essa própria variação ajuda a entender o problema.

O CDC STEADI utiliza 12 segundos ou mais como um sinal que merece atenção dentro de seu processo de avaliação de quedas.

Já as World Guidelines for Falls Prevention and Management, publicadas em 2022, consideram o TUG uma alternativa para estratificação, mas destacam que a evidência para predição de quedas é menos consistente do que para a velocidade da marcha. O documento menciona mais de 15 segundos dentro desse contexto.

Isso não significa que um protocolo esteja necessariamente “certo” e os outros “errados”.

Significa que pontos de corte dependem da população, do objetivo da avaliação, do protocolo utilizado e das características dos estudos que os produziram.

O erro é transformar qualquer um deles em diagnóstico individual.

Fazer o TUG em menos de 13,5 segundos exclui risco de quedas?

Não.

Esse talvez seja o ponto mais importante do artigo.

Na meta-análise de Barry e colaboradores, a baixa sensibilidade do ponto de corte de 13,5 segundos significa que uma parcela relevante dos indivíduos que posteriormente sofreram quedas não seria identificada apenas por esse critério.

Portanto:

um TUG rápido não prova que o idoso não apresenta risco de quedas.

Da mesma forma:

um TUG lento não demonstra, sozinho, que aquela pessoa necessariamente cairá.

Quedas são eventos multifatoriais.

Histórico de quedas, medicamentos, visão, cognição, doenças, força, equilíbrio, marcha, ambiente, medo de cair e diversos outros fatores podem participar do risco.

É por isso que diretrizes atuais recomendam uma avaliação mais ampla quando há indicação de risco.

Então para que o TUG é útil?

Reconhecer essas limitações não torna o TUG um teste ruim.

Esse seria o extremo oposto — e também estaria errado.

Revisões mostram que o TUG apresenta boa confiabilidade como medida de desempenho funcional em diferentes populações, incluindo idosos.

Ele pode ser útil para:

  • quantificar mobilidade funcional;

  • identificar desempenho que merece investigação adicional;

  • complementar outras medidas funcionais;

  • observar aspectos qualitativos do movimento;

  • acompanhar a evolução de uma pessoa ao longo do tempo, desde que o procedimento seja padronizado.

Em outras palavras:

O problema não é usar o TUG. É pedir ao TUG uma resposta que ele não consegue fornecer sozinho.

TUG e acompanhamento da evolução

Há também outra diferença importante entre classificar risco e acompanhar uma pessoa.

Se um idoso realiza o teste periodicamente dentro de condições semelhantes, mudanças no desempenho podem fornecer informação sobre sua evolução.

Mas até aqui é necessário cuidado.

Nem toda diferença de alguns décimos de segundo representa uma mudança funcional importante. Valores de erro de medida e de mudança clinicamente relevante variam entre populações e condições de saúde, e a literatura não sustenta um único valor universal aplicável a todos os idosos.

Por isso, comparar o indivíduo consigo mesmo, mantendo o protocolo e analisando o contexto, tende a ser mais útil do que simplesmente comparar seu resultado com uma tabela isolada.

Como eu interpreto o TUG na prática?

Uma interpretação mais criteriosa envolve pelo menos três níveis:

1. Resultado quantitativo
Quanto tempo foi necessário para completar o teste?

2. Qualidade da execução
Como a pessoa levantou, caminhou, virou e sentou?

3. Contexto
Há histórico de quedas? Dor? Uso de dispositivo de marcha? Alterações de força, equilíbrio ou cognição? Qual é o nível funcional daquela pessoa?

Só depois dessas informações faz sentido integrar o TUG à avaliação.

Conclusão

O Timed Up and Go é uma ferramenta simples, rápida e útil para avaliar mobilidade funcional em idosos.

Mas simplicidade de aplicação não significa simplicidade de interpretação.

Pontos de corte como 12, 13,5 ou 15 segundos podem ser utilizados em determinados protocolos como referências para triagem, mas não devem ser tratados como fronteiras diagnósticas capazes de determinar, sozinhas, quem irá ou não cair.

O tempo do TUG é uma informação.

A interpretação desse tempo, dentro do contexto da pessoa avaliada, é o que transforma o teste em uma ferramenta profissional.

Referências

  1. Podsiadlo D, Richardson S. The Timed “Up & Go”: A Test of Basic Functional Mobility for Frail Elderly Persons. Journal of the American Geriatrics Society. 1991;39(2):142–148.

  2. Shumway-Cook A, Brauer S, Woollacott M. Predicting the probability for falls in community-dwelling older adults using the Timed Up & Go Test. Physical Therapy. 2000;80(9):896–903.

  3. Schoene D et al. Discriminative ability and predictive validity of the Timed Up and Go Test in identifying older people who fall: systematic review and meta-analysis. Journal of the American Geriatrics Society. 2013.

  4. Barry E et al. Is the Timed Up and Go test a useful predictor of risk of falls in community dwelling older adults? Systematic review and meta-analysis. BMC Geriatrics. 2014;14:14.

  5. Montero-Odasso M et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults. Age and Ageing. 2022;51(9):afac205.

Lino Matias

Educação Física, biomecânica e treinamento de idosos.

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