Sentir dor durante o exercício significa que o movimento está causando dano?

Dor durante o exercício não é uma medida direta de dano tecidual. Entenda por que dor e lesão não são sinônimos e como essa diferença muda a tomada de decisão no treinamento de pessoas idosas.o post.

9/30/20269 min read

Sentir dor durante o exercício significa que o movimento está causando dano?
Sentir dor durante o exercício significa que o movimento está causando dano?

Sentir dor durante um exercício significa que aquele movimento está lesionando alguma estrutura?

Não necessariamente.

Essa distinção é uma das mais importantes para quem trabalha com pessoas idosas, porque interpretar toda dor como sinal de dano pode levar à retirada desnecessária de movimentos, redução excessiva de carga e perda progressiva de capacidade física.

Mas o extremo oposto também é inadequado:

dor não deve ser simplesmente ignorada.

A questão é entender o que a dor representa — e principalmente o que ela não permite concluir sozinha.

Dor e dano não são a mesma coisa

A International Association for the Study of Pain (IASP) define dor como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a dano tecidual real ou potencial.

A própria IASP ressalta um ponto fundamental:

dor e nocicepção são fenômenos diferentes.

A dor é uma experiência pessoal influenciada, em diferentes graus, por fatores biológicos, psicológicos e sociais. Ela não pode ser inferida apenas pela atividade dos neurônios responsáveis pela nocicepção. IASP

Isso significa que existe uma relação entre dor e dano, mas essa relação não é de um para um.

Podemos ter:

  • dano com pouca ou nenhuma dor;

  • dor intensa diante de uma lesão relativamente pequena;

  • dor persistente mesmo depois de o tecido ter cicatrizado;

  • dor sem evidência clara de dano tecidual suficiente para explicar sua intensidade.

Portanto:

sentir dor não é o mesmo que medir dano.

O que é nocicepção?

Nocicepção é o processo neural de detectar e codificar estímulos potencialmente nocivos.

A IASP define nocicepção como o processo neural de codificação de estímulos nocivos e destaca explicitamente que sua presença não implica necessariamente experiência de dor. IASP

Essa distinção ajuda bastante.

O sistema nervoso pode receber informações sobre ameaça aos tecidos.

Mas a experiência consciente de dor surge a partir de um processamento muito mais complexo.

Por isso, falar:

“está doendo, então o tecido está sendo danificado”

vai além do que a informação disponível permite concluir.

Então a dor está “só na cabeça”?

Não.

Essa é outra interpretação errada.

Dizer que fatores psicológicos, sociais e contextuais influenciam a dor não significa que ela seja imaginária.

Dor é uma experiência real.

A própria definição atual da IASP foi construída justamente para afastar a ideia de que a experiência dolorosa só é legítima quando existe uma lesão identificável. IASP

O ponto correto é:

dor é real, mas sua intensidade não funciona como um medidor preciso da quantidade de dano tecidual.

Isso é especialmente importante em dores crônicas

Imagine um idoso com osteoartrite de joelho há vários anos.

Ele relata dor quando começa a agachar.

Se toda dor fosse interpretada automaticamente como novo dano, uma conclusão lógica seria:

“o agachamento está desgastando ainda mais a articulação; precisamos interromper.”

Mas as recomendações clínicas para osteoartrite dizem justamente o contrário.

O NICE recomenda exercício terapêutico individualizado para pessoas com osteoartrite e orienta explicar que a dor articular pode aumentar inicialmente com o exercício, enquanto a prática regular e consistente tende a melhorar dor, função e qualidade de vida no longo prazo. Nice

Portanto, sentir algum desconforto durante uma atividade não demonstra, por si só, que aquela atividade esteja acelerando o dano articular.

Exercício com alguma dor pode gerar benefício?

Pode.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 comparou exercícios realizados permitindo alguma dor com exercícios prescritos para permanecer indolores em adultos com dor musculoesquelética crônica.

Foram incluídos 16 ensaios clínicos.

Os pesquisadores não encontraram diferenças claras entre as estratégias para dor ou incapacidade no curto, médio ou longo prazo. A certeza da evidência variou de muito baixa a baixa, portanto não podemos dizer que treinar com dor seja melhor. PubMed

Mas o resultado ajuda a desmontar outra regra absoluta:

exercício só funciona ou só é seguro quando é completamente indolor.

Uma revisão anterior já havia chegado a conclusão semelhante: permitir alguma dor durante exercícios para condições musculoesqueléticas crônicas não impediu bons resultados clínicos. PubMed

Isso significa que devemos provocar dor?

Não.

Essa conclusão também seria incorreta.

Os estudos não mostram que é necessário provocar dor para obter melhores resultados.

A mensagem é mais simples:

alguma dor durante um exercício pode ser compatível com uma intervenção eficaz.

Portanto, o objetivo não deveria ser:

“buscar dor”.

Nem necessariamente:

“eliminar qualquer sensação dolorosa”.

O objetivo é encontrar uma forma de exercício que produza o estímulo desejado com uma resposta tolerável e apropriada para aquela pessoa.

E uma dor forte? Também não significa dano?

Quanto mais intensa, súbita ou diferente do habitual for uma dor, maior deve ser a atenção.

Mas mesmo aí, intensidade isolada não funciona como um diagnóstico estrutural.

Um número como 8/10 informa que a pessoa está relatando uma experiência intensa.

Ele não informa automaticamente:

  • qual estrutura está envolvida;

  • se existe lesão;

  • qual é a extensão da lesão;

  • se aquele movimento deve ser permanentemente evitado.

É preciso integrar outras informações.

O comportamento da dor importa mais do que sua simples presença

Para quem prescreve exercício, algumas perguntas são mais úteis do que apenas:

“está doendo?”

Por exemplo:

  • É uma dor habitual ou completamente nova?

  • Surgiu gradualmente ou de maneira súbita?

  • Aumenta a cada repetição?

  • Muda com a carga?

  • Muda com a amplitude?

  • A execução está se deteriorando?

  • A pessoa está compensando?

  • A dor desaparece após interromper a tarefa?

  • Como ela se comporta nas horas seguintes?

  • A função piorou?

Isso transforma a dor de uma ordem automática de parada em informação para tomada de decisão.

Foi justamente essa lógica que discutimos no artigo Dor durante o exercício em idosos: quando adaptar, interromper ou continuar?.

Um exemplo prático

Imagine dois idosos relatando dor 4/10 durante um agachamento.

Idoso A

Ele já apresenta osteoartrite de joelho diagnosticada.

Relata a mesma dor habitual.

O desconforto permanece estável durante a série.

Não existe alteração evidente da execução.

Ao reduzir um pouco a amplitude, a dor diminui.

Depois do treino, retorna ao padrão habitual.

Idoso B

Nunca havia apresentado aquela dor.

Ela surgiu de forma súbita.

A cada repetição aumenta.

Ele começa a descarregar o peso para o outro membro.

Depois da série, apresenta dificuldade para caminhar.

Nos dois casos:

dor = 4/10.

Mas seria difícil justificar a mesma decisão para os dois.

É por isso que criar um ponto de corte universal — como “até 3 continua, acima de 5 para” — pode ser uma simplificação perigosa.

Dor durante um teste funcional pode alterar o resultado?

Sim.

Isso é especialmente importante para quem trabalha com avaliação de idosos.

Considere o teste de sentar e levantar 5 vezes (5xSTS).

Uma pessoa pode demorar mais para completar o teste porque apresenta menor força ou potência.

Mas também pode diminuir a velocidade porque sente dor ao flexionar o joelho.

O cronômetro não separa essas causas.

Da mesma forma, no Timed Up and Go (TUG), dor pode alterar:

  • levantar da cadeira;

  • velocidade da marcha;

  • mudança de direção;

  • retorno à cadeira.

Portanto, desempenho ruim em um teste funcional também não deveria ser interpretado automaticamente como déficit de uma única capacidade.

E quando a dor muda o movimento?

Esse é um dado relevante.

Se uma pessoa começa um exercício normalmente e, conforme a dor aumenta, passa a:

  • proteger um membro;

  • encurtar muito a amplitude;

  • acelerar uma fase do movimento;

  • perder estabilidade;

  • utilizar apoio extra;

a tarefa já não está sendo executada da mesma forma.

Isso não prova que haja dano.

Mas indica que a resposta à carga está alterando a função.

Nessa situação, pode fazer sentido adaptar carga, amplitude, volume ou exercício antes de simplesmente insistir.

Ausência de dor significa que está tudo bem?

Também não.

Esse é o outro lado do problema.

Existem situações em que alterações estruturais ou fisiológicas podem ocorrer sem dor significativa.

Portanto:

dor não é um exame de imagem interno.

Sua ausência não garante que todo tecido esteja íntegro, da mesma forma que sua presença não confirma lesão.

Dor é uma informação importante.

Mas é apenas uma parte do quadro.

Idosos devem ser mais protegidos da dor?

Idade, sozinha, não significa que toda dor seja mais perigosa.

Mas o contexto do idoso pode exigir mais atenção.

É mais comum coexistirem fatores como:

  • osteoartrite;

  • osteoporose;

  • neuropatias;

  • cirurgias prévias;

  • doenças cardiovasculares;

  • uso de múltiplos medicamentos;

  • histórico de quedas;

  • alterações de sensibilidade.

Por isso, o raciocínio deve ser individualizado.

O erro seria usar a idade como justificativa automática para retirar carga e movimento.

Ser idoso não transforma movimento em perigo.

Mas pode modificar o contexto no qual aquele movimento está sendo realizado.

Quando a possibilidade de dano merece mais atenção?

Algumas situações mudam a interpretação.

Por exemplo:

  • trauma recente;

  • dor súbita e intensa;

  • grande edema;

  • deformidade;

  • perda importante de função;

  • incapacidade de sustentar peso;

  • perda súbita de força;

  • novos sintomas neurológicos;

  • sintomas sistêmicos relevantes.

Nesses casos, o raciocínio deixa de ser simplesmente:

“como ajustar esse exercício?”

e pode passar a ser:

“essa pessoa precisa de avaliação adicional antes de continuar?”

Essa distinção é fundamental.

O medo de dano também pode modificar o movimento

Quando uma pessoa acredita que dor significa obrigatoriamente que está “estragando” uma articulação, ela pode começar a evitar tarefas.

Isso pode levar a:

  • menor atividade física;

  • menos exposição à carga;

  • redução de força;

  • piora da confiança;

  • menor participação em atividades.

Isso não significa que devemos convencer alguém a ignorar dor.

Significa que a informação fornecida pelo profissional também importa.

Explicar que dor e dano não são sinônimos pode ajudar a pessoa a compreender por que alguma exposição gradual ao movimento pode fazer parte da recuperação ou manutenção da função.

O que o profissional deve fazer com a informação “está doendo”?

Não responder automaticamente:

“pare”.

Nem:

“continue”.

Primeiro, investigar.

Uma sequência simples de raciocínio pode ser:

1. Caracterizar a dor

Onde? Desde quando? É conhecida? Mudou?

2. Observar o movimento

A tarefa permanece controlada?

3. Modificar a carga

Dor muda com amplitude, carga, volume ou posição?

4. Observar a evolução

O que acontece durante e depois da sessão?

5. Integrar o contexto

Histórico, diagnóstico, função, outras avaliações e sinais associados.

Essa análise fornece muito mais informação do que simplesmente associar:

dor = lesão.

Então qual é a mensagem principal?

A presença de dor informa que a pessoa está tendo uma experiência dolorosa.

Isso deve ser levado a sério.

Mas ela não informa automaticamente quanto dano existe, qual estrutura está lesionada nem qual deve ser a conduta.

A própria ciência da dor avançou justamente na compreensão de que:

dor é mais complexa do que um simples alarme proporcional ao dano tecidual. IASP

Conclusão

Sentir dor durante um exercício não significa necessariamente que aquele movimento esteja causando dano.

Dor e nocicepção são fenômenos diferentes.

A intensidade da dor não funciona como medida direta da extensão de uma lesão.

Em condições musculoesqueléticas crônicas, alguma dor durante o exercício pode ser compatível com melhora de dor e função ao longo do tempo. PubMed

Mas isso também não significa ignorar sintomas.

O profissional precisa analisar:

tipo de dor + comportamento durante a carga + alteração do movimento + resposta posterior + contexto clínico e funcional.

Por isso, uma pergunta mais útil do que:

“doeu ou não doeu?”

é:

“O que essa dor representa neste contexto e o que muda na minha decisão?”

Essa diferença parece pequena.

Na prática, ela separa reagir à dor de interpretar a dor.

Leia também

Referências principais

International Association for the Study of Pain — IASP. Revised Definition of Pain e Terminology. A IASP diferencia explicitamente dor de nocicepção e descreve a influência de fatores biológicos, psicológicos e sociais sobre a experiência dolorosa. IASP

Raja SN et al. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Pain. 2020. IASP

Tran I et al. Effectiveness of Painful Versus Nonpainful Exercise on Pain Intensity, Disability, and Other Patient-Reported Outcomes in Adults With Chronic Musculoskeletal Pain: An Updated Systematic Review With Meta-Analysis. J Orthop Sports Phys Ther. 2025;55(8):1–11. A revisão não encontrou superioridade clara entre exercício doloroso e indolor; a certeza da evidência foi baixa ou muito baixa. PubMed

Smith BE et al. Should exercises be painful in the management of chronic musculoskeletal pain? A systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2017. A revisão indicou que permitir alguma dor durante exercício não impediu resultados clínicos favoráveis. PubMed

NICE. Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management. NG226. O guideline recomenda exercício terapêutico e orienta informar que dor ou desconforto podem aumentar inicialmente, enquanto adesão regular tende a melhorar sintomas e função. Nice

Lino Matias

Educação Física, biomecânica e treinamento de idosos.

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