Obesidade Infantil e Fôlego: Por Que o Exercício é Mais Difícil para Crianças com Sobrepeso?
Você já reparou como algumas crianças parecem se cansar muito mais rápido do que outras durante uma simples brincadeira de pega-pega ou ao subir um lance de escadas? Muitas vezes, isso é atribuído apenas à "falta de costume", mas a ciência revela que há mudanças fisiológicas profundas envolvidas. Um estudo recente publicado na revista científica PLOS One trouxe dados reveladores sobre como o excesso de peso impacta diretamente o desempenho cardiorrespiratório e o gasto energético de crianças e adolescentes. A pesquisa, liderada por Carlos Sepúlveda e sua equipe, analisou 242 jovens entre 8 e 16 anos para entender por que a obesidade torna o exercício físico um desafio tão maior. Neste artigo, vamos explorar as descobertas desse estudo e entender como o condicionamento físico na infância é um pilar essencial para a saúde a longo prazo.
Lino Matias
1/6/20264 min read


O que é Desempenho Cardiorrespiratório e por que ele importa?
O desempenho cardiorrespiratório (DCR) é a capacidade dos nossos sistemas circulatório e respiratório de fornecer oxigênio aos músculos durante a atividade física. Em termos simples, é o que chamamos popularmente de "fôlego" ou "resistência".
Para crianças e adolescentes, manter bons níveis de DCR não é apenas uma questão de ser bom em esportes. Níveis elevados de resistência estão ligados a:
Melhor saúde cardiovascular e metabólica em qualquer idade.
Melhor desempenho em atividades diárias e escolares.
Redução de riscos futuros para doenças como diabetes tipo 2 e hipertensão.
Por outro lado, o estudo destaca que níveis baixos de DCR estão associados a riscos aumentados de doenças cardiovasculares, câncer e até mortalidade por todas as causas na vida adulta.
A Ciência por Trás do Estudo: Como o Excesso de Peso Afeta o Fôlego
O estudo classificou os participantes em três grupos: peso saudável, sobrepeso e obesidade. Os pesquisadores utilizaram protocolos rigorosos para medir o consumo máximo de oxigênio (VO2 máx) e o gasto energético durante uma tarefa de exercício que simulava subir degraus.
Menos Oxigênio para Mais Esforço: O Papel do VO2 Máx
A principal descoberta foi que crianças com sobrepeso ou obesidade apresentam um VO2 máx significativamente menor em relação ao seu peso corporal. O VO2 máx é o "padrão ouro" para medir o condicionamento físico.
Meninas: Aquelas com peso saudável apresentaram uma média de 35,0 ml·kg⁻¹·min⁻¹, enquanto as com obesidade caíram para 27,6 ml·kg⁻¹·min⁻¹.
Meninos: O padrão se repetiu, com meninos de peso saudável atingindo 38,8 ml·kg⁻¹·min⁻¹, contra 32,8 ml·kg⁻¹·min⁻¹ nos obesos.
Isso significa que, para uma criança com obesidade, o corpo tem menos "combustível" (oxigênio) disponível para realizar a mesma tarefa que uma criança de peso saudável.
Gasto Energético: Por que Crianças com Sobrepeso se Cansam Mais Rápido?
Outro ponto crucial abordado pelo estudo foi o gasto energético durante o exercício. Os resultados mostraram que participantes com sobrepeso e obesidade exibiram uma taxa de custo de energia mais alta durante a tarefa proposta.
A Intensidade do Exercício no Dia a Dia
Durante o teste de subir e descer degraus (30 passos por minuto por 3 minutos), os pesquisadores observaram que:
Percepção de Esforço Elevada: Crianças com excesso de peso sentiam que o exercício era muito mais difícil (medido pela escala de Borg).
Trabalho em Alta Intensidade: Elas realizavam a tarefa utilizando uma porcentagem muito maior de sua capacidade máxima de oxigênio em comparação aos colegas de peso saudável.
Frequência Cardíaca: Os batimentos cardíacos subiram de forma mais acentuada nos grupos com sobrepeso e obesidade durante a atividade.
Esses dados explicam por que atividades que parecem simples para alguns podem ser exaustivas e desconfortáveis para crianças com obesidade, o que muitas vezes as desestimula a continuar praticando esportes.
O Coração que Demora a "Acalmar": A Recuperação Pós-Esforço
A eficiência do sistema cardiovascular não é medida apenas pelo desempenho durante o exercício, mas também pela rapidez com que o corpo volta ao estado de repouso.
O estudo utilizou os índices de Ruffier e Dickson para avaliar a recuperação da frequência cardíaca. Os resultados foram claros: a recuperação foi menos eficiente em crianças e adolescentes com sobrepeso e obesidade.
Maior tempo de recuperação: O coração dessas crianças demora mais para retornar aos batimentos normais após o esforço físico.
Baixo CRF e Recuperação: Níveis baixos de condicionamento cardiorrespiratório foram diretamente ligados a pontuações piores nesses índices de recuperação.
Essa recuperação lenta é um indicador de que o sistema cardiovascular está sob estresse constante e possui menos "reserva" para lidar com novos esforços imediatos.
Implicações para a Saúde e Educação Física
As descobertas deste estudo têm aplicações práticas importantes para pais, professores de educação física e profissionais de saúde. Entender que a dificuldade de uma criança com sobrepeso não é "preguiça", mas sim uma limitação fisiológica real, muda a forma como o exercício deve ser abordado.
Como Incentivar a Atividade Física de Forma Segura?
Para ajudar crianças com obesidade a melhorar seu desempenho cardiorrespiratório, é necessário:
Respeitar os Limites: Reconhecer que a mesma atividade tem intensidades diferentes para cada criança.
Focar na Progressão: O objetivo deve ser aumentar gradualmente o VO2 máx para reduzir os riscos à saúde.
Valorizar o Conforto: Atividades de alta intensidade podem causar desconforto físico e fadiga precoce, por isso o exercício moderado e constante pode ser mais eficaz inicialmente.
Monitoramento: A avaliação do DCR em ambientes clínicos e escolares é crucial para identificar crianças em risco e criar planos de intervenção personalizados.
Conclusão: O Movimento como Remédio
O estudo publicado na PLOS One reforça que a obesidade infantil não afeta apenas a estética ou a mobilidade, mas altera a forma como o corpo gerencia energia e oxigênio. Crianças com excesso de peso gastam mais energia, trabalham em intensidades mais altas e demoram mais para se recuperar de esforços simples.
Melhorar a aptidão física é uma estratégia crítica de proteção contra as comorbidades associadas à síndrome metabólica e doenças cardiovasculares. Ao incentivar o movimento e adaptar as atividades físicas, podemos ajudar essas crianças a ter uma vida mais saudável, ativa e com muito mais fôlego para o futuro.
Lembre-se: cada passo conta. O aumento, mesmo que pequeno, no consumo de oxigênio já está associado a reduções significativas nos riscos de mortalidade e eventos cardiovasculares ao longo da vida.
REFERÊNCIA: Sepúlveda C, Monsalves-Álvarez M, Troncoso R, Weisstaub G. Children and adolescents with overweight or obesity exhibit poor cardiorespiratory performance and elevated energy expenditure during an exercise task. PLoS One. 2025 Jul 8;20(7):e0327875. doi: 10.1371/journal.pone.0327875. PMID: 40627658; PMCID: PMC12237028.