Equilíbrio e Cognição: Como a Mente Influencia a Postura na Terceira Idade

Você já reparou que algumas pessoas idosas parecem caminhar com mais insegurança ou apresentam oscilações no corpo mesmo paradas? Embora muitos pensem que o equilíbrio é apenas uma questão de força muscular, a ciência acaba de trazer novos dados reveladores. Um estudo recente publicado na BMC Geriatrics investigou como o declínio cognitivo, mesmo em fases iniciais, impacta diretamente o controle postural de mulheres idosas fisicamente independentes. Os resultados mostram que a mente e o corpo estão muito mais conectados do que imaginávamos.

Lino Matias

1/28/20262 min read

Por que a Cognição Afeta o Equilíbrio?

O controle da nossa postura não é algo automático e simples. Ele depende de uma integração complexa de informações que o cérebro recebe da visão, do sistema vestibular (ouvido interno) e da propriocepção (sensores nos músculos e articulações).

Quando ocorre um declínio cognitivo, o cérebro tem mais dificuldade em processar esses dados rapidamente. A pesquisa aponta que:

  • Alterações na função motora podem surgir logo nas primeiras fases do declínio mental.

  • Mudanças no controle postural podem ser marcadores precoces de vulnerabilidade cognitiva.

  • O cérebro utiliza os mesmos circuitos neurais para funções cognitivas e de equilíbrio.

O Que o Estudo Descobriu sobre Mulheres Idosas

A pesquisa analisou 129 mulheres com média de 69 anos, todas fisicamente independentes. Elas foram divididas em três grupos com base no teste MoCA (Montreal Cognitive Assessment): Cognição Normal (CN), Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) e Comprometimento Cognitivo Avançado (CCA).

A Velocidade de Oscilação como Alerta

Os pesquisadores utilizaram uma plataforma de força para medir a oscilação do corpo em diferentes condições (olhos abertos, fechados, sobre espuma e realidade virtual).

Os principais achados foram:

  1. Maior instabilidade: Mulheres com maior comprometimento cognitivo (CCA) apresentaram uma velocidade de oscilação significativamente maior em comparação às que tinham cognição normal.

  2. Direção do movimento: Essa oscilação foi mais evidente nas direções anteroposterior (frente e trás) e mediolateral (lados).

  3. Desafios sensoriais: Quando o equilíbrio foi testado em superfícies instáveis (espuma) ou com estímulos visuais complexos (realidade virtual), as mulheres com menores scores cognitivos tiveram muito mais dificuldade.

Realidade Virtual e o Equilíbrio no Dia a Dia

Um dos pontos mais interessantes do estudo foi o uso de óculos de Realidade Virtual (RV) que simulavam a travessia de uma rua movimentada. Esse teste reflete situações reais do cotidiano, onde ruídos e movimentos visuais podem distrair a pessoa.

O grupo com comprometimento cognitivo avançado mostrou uma oscilação muito maior sob esse estímulo. Isso sugere que, para essas idosas, ambientes urbanos complexos representam um risco real de quedas devido à sobrecarga cognitiva.

Como Prevenir Quedas e Manter a Mente Ativa?

A conclusão do estudo é clara: o rastreio cognitivo deve fazer parte das avaliações de risco de quedas. Se o corpo está oscilando mais, pode ser um sinal de que a mente também precisa de atenção.

Aqui estão algumas recomendações baseadas nas evidências científicas:

  • Combine treinos: Exercícios que unem equilíbrio e desafios mentais (como contar ou resolver problemas enquanto caminha) trazem resultados superiores ao treino de equilíbrio isolado.

  • Avaliação precoce: O uso de testes como o MoCA pode ajudar a identificar quem precisa de intervenções preventivas antes mesmo que uma queda ocorra.

  • Atenção aos ambientes: Idosos com declínio cognitivo devem ter cuidado redobrado em locais com muitos estímulos visuais ou superfícies irregulares.

O equilíbrio é, em última análise, um diálogo entre o cérebro e os músculos. Cuidar da saúde mental é, portanto, um passo fundamental para manter a autonomia e a segurança física ao envelhecer.

REFERÊNCIA: Pereira C, Gomes BP, da Silva Honorato A, Scherer FC, Pelegrinelli ARM, Smith EC, Moura FA, Probst VS, Coombes JS, da Silva RA, de Castro Teixeira D. Influence of cognitive function on postural control in physically independent older women: a time and time-frequency domain analysis. BMC Geriatr. 2026 Jan 19. doi: 10.1186/s12877-026-06982-1. Epub ahead of print. PMID: 41549246.