Como o Treinamento Funcional de Baixa Intensidade Pode Reduzir a Rigidez Arterial em Homens Jovens
Você sabia que a forma como você treina força pode impactar diretamente a saúde dos seus vasos sanguíneos? Um estudo recente publicado na Frontiers in Physiology trouxe descobertas fascinantes sobre os efeitos do treinamento de resistência na rigidez arterial, um importante marcador de saúde cardiovascular. Enquanto o treinamento tradicional com cargas elevadas é amplamente reconhecido por construir músculos, novas evidências sugerem que abordagens funcionais com menor intensidade podem oferecer um benefício extra: tornar suas artérias mais flexíveis e saudáveis. A rigidez arterial é um sinal de alerta precoce para doenças cardiovasculares. Com o avançar da idade, nossas artérias tendem a perder elasticidade, aumentando o risco de problemas cardíacos. Por muito tempo, os exercícios aeróbicos foram considerados os principais aliados para combater esse fenômeno. No entanto, este estudo inovador coloca o treinamento de força no centro do debate, revelando como diferentes metodologias podem gerar resultados distintos na saúde vascular de homens jovens previamente sedentários. Vamos mergulhar nos detalhes desta pesquisa e descobrir como ajustar seu treino pode beneficiar não só seus músculos, mas também seu coração.
Lino Matias
12/18/20254 min read


O Que é Rigidez Arterial e Por Que Ela Importa?
A rigidez arterial refere-se à perda de elasticidade das paredes das artérias.
Artérias saudáveis são flexíveis e se expandem com cada batimento cardíaco.
Quando ficam rígidas, o coração precisa trabalhar mais para bombear o sangue.
Isso eleva a pressão arterial e prejudica a circulação por todo o corpo.
CAVI: O Marcador de Precisão
O estudo utilizou um indicador avançado chamado Cardio-Ankle Vascular Index (CAVI).
Diferente de outras medidas, o CAVI é independente da pressão arterial no momento da medição.
Isso o torna uma ferramenta mais precisa para avaliar a rigidez arterial verdadeira.
Valores abaixo de 8 são considerados normais, enquanto acima de 9 indicam rigidez significativa.
O Estudo: Treinamento Tradicional vs. Funcional
A pesquisa conduzida por Zuo e sua equipe envolveu 29 homens jovens sedentários.
Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos para um programa de 6 semanas.
Grupo de Treinamento Tradicional (TRT)
Intensidade: Alta (70% de 1RM - Repetição Máxima).
Volume: 4-5 séries de 12 repetições.
Exercícios: Movimentos clássicos como supino, agachamento e levantamento terra.
Ambiente: Realizados em superfícies estáveis.
Grupo de Treinamento Funcional (FRT)
Intensidade: Baixa (40% de 1RM).
Volume: 4-5 séries de 20 repetições.
Exercícios: Os mesmos movimentos, mas em superfícies instáveis (como bosu balls e bolas suíças).
Foco: Ativação muscular profunda, equilíbrio e controle motor.
Ambos os grupos treinaram até a falha voluntária, três vezes por semana.
Resultados Surpreendentes: O Functional Venceu no CAVI
Após as 6 semanas de intervenção, os resultados foram reveladores.
Impacto na Rigidez Arterial (CAVI)
Grupo Funcional (FRT): Redução significativa no CAVI.
Grupo Tradicional (TRT): Nenhuma mudança estatisticamente significativa.
Conclusão: Apenas o treinamento funcional de baixa intensidade conseguiu melhorar a elasticidade arterial.
Ganhos de Força e Potência Muscular
Ambos os grupos apresentaram melhorias igualmente significativas em:
Força máxima (1RM no supino, agachamento e levantamento terra).
Resistência muscular.
Potência (medida pelo salto com contra-movimento).
A descoberta: A intensidade (alta vs. baixa) não foi o fator decisivo para ganhos musculares quando o treino era realizado até a falha. O volume total de trabalho pareceu ser crucial.
A Correlação Chave: Força no Supino e Saúde Arterial
Uma das correlações mais interessantes foi encontrada em toda a amostra:
A redução no CAVI (artérias mais flexíveis) esteve negativamente correlacionada com o aumento da força no supino.
Ou seja, quanto mais os participantes ganhavam força no supino, maior tendia a ser a melhora na flexibilidade arterial.
Essa correlação foi particularmente forte no grupo de treinamento tradicional.
Por Que o Treinamento Funcional Reduziu a Rigidez Arterial?
Os pesquisadores discutiram possíveis mecanismos por trás dos resultados.
Papel do Óxido Nítrico
O exercício físico promove a liberação de óxido nítrico (NO), um potente vasodilatador.
O NO relaxa as paredes dos vasos sanguíneos, melhorando a função endotelial.
Especula-se que o treinamento funcional, com seus padrões complexos de movimento, possa estimular de forma única essa via benéfica.
Estabilidade vs. Instabilidade
Treinar em superfícies instáveis exige uma ativação muscular global e coordenada.
Isso pode gerar um estímulo hemodinâmico diferente, talvez mais parecido com atividades da vida diária.
Esse estímulo pode ser mais eficaz em promover adaptações vasculares positivas sem o estresse pressórico extremo de cargas muito altas.
A Importância da Métrica Correta (CAVI vs. PWV)
O estudo sugere que resultados conflitantes de pesquisas anteriores podem estar ligados à ferramenta de medição.
Muitos estudos usaram a Velocidade de Onda de Pulso (PWV), que é influenciada pela pressão arterial momentânea.
O CAVI, por ser independente da pressão, pode capturar as mudanças reais na parede arterial com mais fidelidade.
Isso destaca a importância da metodologia na interpretação dos efeitos do exercício na saúde vascular.
Limitações e Direções Futuras
Como qualquer estudo, esta pesquisa teve suas limitações.
Tamanho da Amostra: Com 29 participantes, os resultados são promissores, mas precisam de replicação em grupos maiores.
População Específica: Os achados aplicam-se a homens jovens e sedentários. Mais estudos são necessários com mulheres, idosos e atletas.
Dieta: O consumo alimentar não foi controlado, o que poderia influenciar tanto os ganhos musculares quanto os marcadores vasculares.
Mecanismos: A pesquisa apontou associações, mas os mecanismos fisiológicos exatos (como níveis de óxido nítrico) não foram diretamente medidos.
Conclusão: Implicações Práticas Para Seu Treino
Este estudo oferece insights valiosos para quem busca saúde integral.
Para Saúde Cardiovascular: O treinamento funcional de baixa intensidade (40% 1RM) em superfícies instáveis surgiu como uma estratégia eficaz para reduzir a rigidez arterial em homens jovens.
Para Ganhos Musculares: Ambas as abordagens foram eficazes para aumentar força, resistência e potência, desde que o treino fosse levado à falha muscular. A alta intensidade não foi obrigatória.
Para Prescrição de Exercícios: A combinação de treinamento de força com elementos de instabilidade pode ser especialmente benéfica, promovendo ganhos de aptidão muscular e melhorias na saúde vascular.
A mensagem final é poderosa: a saúde do coração e a força muscular podem andar de mãos dadas. Incorporar exercícios funcionais, que desafiam o equilíbrio e a coordenação, pode ser a chave para um treino que fortalece tanto o músculo quanto o sistema que o nutre.
Que tal desafiar seu próximo treino de força com uma bosu ball ou uma bola suíça? Seu corpo – e suas artérias – podem agradecer.
REFERÊNCIA: Zuo C, Bo S, Li Q, Zhang L. The Effect of Whole-Body Traditional and Functional Resistance Training on CAVI and Its Association With Muscular Fitness in Untrained Young Men. Front Physiol. 2022 May 25;13:888048. doi: 10.3389/fphys.2022.888048. PMID: 35694401; PMCID: PMC9174581.