Ciência do Agachamento: Por que a Carga Máxima te Faz Falhar?
Você já sentiu que, ao tentar bater seu recorde pessoal no agachamento, o movimento flui bem no início, mas "trava" inexplicavelmente no meio da subida?. Esse fenômeno frustrante é conhecido na ciência como a "região de travamento" ou sticking region. Um estudo biomecânico detalhado investigou exatamente o que acontece com o corpo quando usamos cargas de 90%, 100% e até 102% da nossa força máxima (1-RM). Entender esses mecanismos é o segredo para superar seus limites e evitar lesões. Neste artigo, vamos mergulhar na ciência por trás da barra e descobrir por que o seu quadril pode ser o fator decisivo entre o sucesso e a falha.
Lino Matias
12/23/20254 min read


O Mistério da "Sticking Region": Onde o Movimento Para?
A fase concêntrica (a subida) do agachamento com barra não é um movimento de velocidade constante. A ciência divide essa subida em três fases distintas:
Região de Pré-travamento: Uma aceleração inicial explosiva saindo do fundo do agachamento.
Região de Travamento (Sticking Region): Uma fase de desaceleração onde a velocidade da barra cai drasticamente.
Região de Pós-travamento: Onde você recupera a aceleração e finaliza o movimento com sucesso.
O estudo revelou que essa desaceleração perigosa começa cerca de 0,3 segundos após o início da subida. Isso ocorre porque o efeito de "potencialização" do ciclo alongamento-encurtamento (o impulso elástico do músculo) começa a diminuir exatamente nesse ponto.
O Impacto da Carga na Velocidade e no Deslocamento
Conforme a carga na barra aumenta, a dinâmica do exercício muda completamente. Os pesquisadores observaram que, com 102% de 1-RM (carga de falha), a barra percorre uma distância muito menor antes de parar completamente.
Com 90% da carga: A velocidade é maior e o ponto de travamento é superado com mais facilidade.
Com 100% da carga: A velocidade mínima da barra é muito baixa, exigindo um esforço hercúleo para continuar.
Com 102% da carga: A barra trava significativamente mais cedo, geralmente em torno de 0,11 metros de deslocamento.
Essa relação direta entre o peso e a perda de velocidade mostra que, em cargas extremas, a margem de erro biomecânica é praticamente zero.
A Batalha das Articulações: Quadril vs. Joelho
Um dos achados mais fascinantes do estudo é como o corpo distribui o esforço entre as articulações. Diferente do que muitos pensam, o joelho não é o único protagonista.
Por que o quadril é o "elo fraco" na carga máxima?
Enquanto os momentos de força no joelho e no tornozelo permanecem relativamente estáveis mesmo com o aumento da carga, o momento de extensão do quadril aumenta drasticamente.
O quadril é responsável por estender o tronco e elevar a barra simultaneamente.
Com cargas maiores, há uma tendência natural de inclinar o tronco mais para a frente.
Essa inclinação aumenta o "braço de momento" no quadril, tornando o peso da barra mecanicamente "mais pesado" para os glúteos e isquiotibiais.
A pesquisa aponta que a falha no agachamento ocorre principalmente porque o quadril atinge um limite de capacidade mecânica. Em ângulos de flexão profunda (cerca de 70°), os extensores do quadril estão em uma posição de desvantagem mecânica severa.
Ativação Muscular sob Pressão Extrema (EMG)
A atividade mioelétrica (EMG) nos diz o quanto seus músculos estão sendo recrutados pelo sistema nervoso. No estudo, 12 músculos foram monitorados, incluindo glúteos, quadríceps e eretores da espinha.
O fenômeno da queda de ativação na falha
Surpreendentemente, nas tentativas de 102% (onde houve falha), a ativação de todos os extensores do quadril e do vasto lateral foi menor do que nas cargas de 100% bem-sucedidas.
Isso sugere que, ao atingir o ponto crítico em uma posição mecanicamente desfavorável, o corpo simplesmente não consegue manter a produção de força necessária, resultando no travamento do movimento.
Glúteo Máximo: Mostrou menor atividade na carga de falha justamente no ponto onde deveria estar mais forte.
Vasto Lateral: Essencial para a extensão inicial do joelho, sua queda de ativação contribui para a perda de altura da barra.
Eretores da Espinha: O estudo notou que o corpo tenta compensar a carga aumentando a ativação dos eretores para manter o tronco rígido.
Por que Inclinar o Tronco Pode ser um Problema (e uma Solução)
A inclinação do tronco aumenta durante a fase de travamento para todas as cargas. Isso acontece porque o joelho termina sua extensão principal antes do quadril.
Quando você estende os joelhos primeiro, o quadril é "empurrado" para trás, o que aumenta a inclinação do torso. Embora isso ajude a recrutar os glúteos, se a inclinação for excessiva, o peso sobrecarrega o quadril além do que ele pode suportar.
Dicas Práticas para Superar o seu Recorde
Com base nas evidências científicas deste estudo, aqui estão estratégias para melhorar seu agachamento:
Fortaleça os Extensores do Quadril: Se o quadril é o "gargalo" na carga máxima, exercícios como o levantamento terra romeno e o hip thrust são fundamentais.
Trabalhe a Região de Travamento: Utilize agachamentos com pausa exatamente no ponto onde você costuma travar (cerca de 10-20 cm acima do fundo).
Mantenha a Rigidez do Tronco: Um eretor da espinha forte ajuda a manter a barra em uma trajetória melhor, evitando que você incline demais e aumente o braço de momento do quadril.
Foco na Velocidade Inicial: Quanto maior a aceleração na saída do agachamento, mais energia você terá para "atravessar" a sticking region antes que o efeito de potencialização acabe.
Conclusão: A Ciência a Favor do Treino
O agachamento com barra é um dos exercícios mais complexos e desafiadores da musculação. A ciência nos mostra que a falha com cargas extremas não é apenas uma questão de "falta de vontade", mas um limite biomecânico real onde o quadril não consegue mais vencer a gravidade.
Ao entender que o ponto de travamento é influenciado pela perda do impulso elástico e pela desvantagem mecânica do quadril, você pode direcionar seu treinamento para atacar essas fraquezas específicas.
Lembre-se: treinar pesado é importante, mas treinar com inteligência biomecânica é o que transforma um praticante em um atleta de elite. Da próxima vez que estiver sob a barra, foque em uma saída explosiva e mantenha o quadril sob controle — a ciência estará do seu lado.
REFERÊNCIA: Larsen S, Kristiansen E, Nygaard Falch H, Estifanos Haugen M, Fimland MS, van den Tillaar R. Effects of barbell load on kinematics, kinetics, and myoelectric activity in back squats. Sports Biomech. 2025 Oct;24(10):2856-2870. doi: 10.1080/14763141.2022.2085164. Epub 2022 Jun 10. PMID: 35686617.