Alongamento: O Que a Ciência Diz e Por Que Muitos Especialistas Ainda Acreditam em Mitos

A prática do alongamento é um ritual quase sagrado em academias, clínicas de fisioterapia e campos esportivos. Desde o aquecimento até o desaquecimento, ele é visto como a chave para melhorar a performance esportiva, prevenir lesões e até mesmo aliviar a temida dor muscular tardia (DOMS). Mas, e se dissermos que grande parte do que se acredita sobre os efeitos do alongamento está desatualizada ou, pior, é mito? Uma pesquisa científica recente, focada no conhecimento de especialistas do movimento, revelou uma chocante divergência entre a prática e a evidência científica atual. O estudo expõe um abismo na transferência de conhecimento que precisa ser compreendido por todos que se movem.

Lino Matias

12/16/20255 min read

O Estudo Que Expondo a Distância entre Teoria e Prática

A pesquisa, conduzida com mais de 1.200 profissionais do movimento (incluindo fisioterapeutas, cientistas do esporte e treinadores), investigou o que esses especialistas realmente sabiam sobre os benefícios do alongamento. O objetivo central era claro: verificar se o conhecimento dos especialistas estava alinhado com o consenso científico mais moderno.

Os resultados foram alarmantes. Em diversas áreas, a crença popular e a experiência prática superaram os dados consolidados em artigos científicos.

A Grande Divergência: Mitos vs. Evidências

O estudo sugere que o tempo de espera para que uma descoberta científica chegue à prática clínica pode ser incrivelmente longo. Quando se trata de alongamento, a maioria dos profissionais ainda opera com base em informações que já foram refutadas ou, no mínimo, enfraquecidas pela evidência científica.

Este cenário não é um problema de má-fé, mas sim uma falha sistêmica na educação continuada e na atualização profissional, algo crucial em campos dinâmicos como a saúde e o esporte. O desafio é: como fechar essa lacuna?

Alongamento e Performance: O Mito da Potência Máxima

Um dos pontos mais sensíveis da pesquisa diz respeito à relação entre alongamento e força, especialmente quando realizado imediatamente antes do exercício. A crença generalizada é que o alongamento pré-exercício prepara o músculo, aumentando sua capacidade de gerar força.

A Perspectiva dos Especialistas:

  • Mais da metade dos profissionais pesquisados (cerca de 52%) acreditava que o alongamento estático feito antes de uma atividade melhoraria a performance esportiva.

  • Acreditavam que este tipo de alongamento aumentaria a força máxima ou a potência muscular.

O Veredito da Ciência:

A realidade, corroborada por inúmeros estudos, é que o alongamento estático prolongado realizado antes de um treino de força ou potência pode, na verdade, ser prejudicial.

  • Ele pode reduzir temporariamente a produção de força muscular.

  • Pode diminuir a potência e a capacidade de salto.

  • Os efeitos negativos são mais notáveis em exercícios que exigem explosão muscular.

O Papel Crucial do Tipo de Alongamento

O grande erro, segundo os pesquisadores, está na falta de distinção entre as modalidades de alongamento. O corpo reage de maneiras completamente diferentes ao alongamento estático e ao alongamento dinâmico.

Alongamento Estático (Manter a posição):

  • Geralmente mais indicado para aumentar a amplitude de movimento no longo prazo.

  • Deve ser evitado antes de atividades que demandam força e velocidade.

Alongamento Dinâmico (Movimento controlado):

  • Envolve a movimentação ativa de uma articulação por toda a sua amplitude.

  • É o tipo de alongamento mais recomendado como parte de um aquecimento adequado, pois imita os movimentos do esporte.

Portanto, para otimizar a performance, o foco deve estar em um aquecimento dinâmico e específico para a atividade, deixando o alongamento estático para outros momentos da rotina.

Prevenção de Lesões e Dor Pós-Treino: Onde a Crença é Mais Forte

Talvez os mitos mais arraigados girem em torno da prevenção de lesões e da redução de dor muscular. Estes são os principais argumentos usados para justificar a rotina de alongar antes e depois de qualquer atividade.

Lesões: A Proteção que Não Existe?

O argumento de que o alongamento é uma barreira de segurança contra rupturas e distensões foi a crença mais forte entre os entrevistados.

  • Cerca de 79% dos especialistas concordaram que o alongamento previne lesões.

Apesar da convicção, a evidência científica atual não sustenta essa afirmação, ou a sustenta de forma muito fraca.

O que a pesquisa realmente mostra:

  • A inclusão de alongamento isolado (estático ou dinâmico) não demonstrou reduzir significativamente a incidência de lesões esportivas.

  • Um programa completo de treinamento de força e aquecimento adequado é muito mais eficaz para a segurança no exercício do que o alongamento.

  • A exceção pode ser para esportes que exigem grande flexibilidade (como ginástica), onde o alongamento ajuda a atingir a amplitude necessária.

Para a maioria dos atletas e praticantes de exercício, a melhor prevenção de lesões vem da progressão gradual da carga e do fortalecimento muscular.

A Famosa "Dorzinha" (DOMS): O Alongamento Ajuda?

A dor muscular tardia (DOMS) é aquela sensação de desconforto que aparece um ou dois dias após um treino intenso. É comum ver pessoas alongando na esperança de "soltar" o músculo e aliviar a dor.

  • Cerca de 66% dos especialistas acreditavam que o alongamento reduziria a DOMS.

Mais uma vez, a ciência discorda de forma contundente:

  • O alongamento realizado após o exercício tem um efeito mínimo ou nulo sobre a intensidade ou duração da dor muscular tardia.

  • Ele pode proporcionar um alívio momentâneo, mas não altera o processo fisiológico da dor.

  • Estratégias como sono adequado, nutrição e recuperação ativa são muito mais eficientes no manejo da DOMS.

A Ponte Quebrada: Por Que a Ciência Não Chega na Prática?

O estudo levanta a questão crucial: se a ciência tem essas respostas há anos, por que o conhecimento dos especialistas não está atualizado? A resposta reside nas complexas dinâmicas de transferência de conhecimento.

Os pesquisadores identificaram que, embora a literatura científica fosse a fonte de informação mais citada pelos profissionais, outros fatores tinham um peso enorme na formação da sua prática:

  • Experiência Pessoal: O que funcionou com o profissional ou com um cliente em particular é frequentemente mais valorizado do que um estudo populacional.

  • Educação Inicial: O que é ensinado nas universidades e cursos técnicos pode demorar a ser atualizado.

  • Cultura Profissional: As práticas que são transmitidas de colega para colega ou que são tradicionais no ambiente de trabalho se perpetuam.

Essa resistência à mudança cria um ciclo onde o mito do alongamento se mantém vivo, mesmo com evidências em contrário.

Conclusão: O Futuro da Prática Baseada em Evidências

Os resultados deste estudo são um chamado de atenção não apenas para os profissionais do movimento, mas para todos nós. Eles nos lembram que a prática baseada em evidências não é um luxo, mas uma necessidade ética e funcional.

Para Profissionais (Fisioterapia, Treinamento Esportivo):

  • Busquem ativamente por revisões sistemáticas e metanálises atualizadas.

  • Questionem práticas tradicionais que não têm apoio científico robusto.

  • Sejam céticos quanto aos resultados anedóticos e à experiência isolada.

Para o Público:

  • Questionem a rotina de alongamento que lhes é proposta.

  • Foquem naquilo que realmente gera benefícios comprovados: treinamento de força, descanso e nutrição.

O alongamento ainda tem seu valor, principalmente para aumentar a flexibilidade e a amplitude de movimento. Contudo, é fundamental abandonar a ideia de que ele é uma pílula mágica para prevenção de lesões e alívio da dor. A ciência está em constante evolução, e a nossa prática também deve estar.

REFERÊNCIA: Warneke K, Konrad A, Wilke J. The knowledge of movement experts about stretching effects: Does the science reach practice? PLoS One. 2024 Jan 26;19(1):e0295571. doi: 10.1371/journal.pone.0295571. PMID: 38277378; PMCID: PMC10817148.